quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Ao abrir a foto

Eu achava simples abrir a foto e descobrir tudo o que mudou de nosso pensamento. Como a liberdade que, concentrava as melodias de nosso olhar, eram vertidas, secretamente, na rítmica moribunda de nosso cotidiano...
(Cuesta creer que los deseos, trampas armadas hacia el próximo paso, hayan sido justamente plantadas por el ocaso de nuestro albedrío… que a cada paso al destino multiplica en segundos las partículas tomadas por fugases decisiones… he decidido marchar por el sendero un día más, como si fuera posible, aun solo, llegar por fin, a un día más…)
É… não é nada simples defrontar, utilizando as lentes cristalizadas pela idade, o brilho vertical, o feixe de luz de nossos olhos que fende as dimensões, as paisagens imobilizadas pelo nosso olhar contemplativo que me contempla enquanto eu contemplo a foto... tardes distantes... e feito espírito de cadáver que desespera ao se deparar com a finitude do próprio corpo, assim chorei quando a nossa foto abri, e muito longe percebi, que nesse ato havia tramado, uma vez, entre tantas mais, o nosso fim...

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

A obra definitiva

Prestes a realizar
a obra definitiva,
esquento as palavras
esfregando as mãos,
nas teclas a calma
de fazer um poema
sincero como o olhar
que entre nosso abraço aperto.

E me interessa muito ouvir a cumplicidade muda de nosso silêncio. E custa muito crer no tempo, no tempo que levamos somados em cada café bebido, no tempo passado de um futuro infinito, no tempo esse espião aliado de nossas conversas, amigo..
Sempre preparo a frente o poema definitivo, transborda de minhas mãos o próprio espírito que respira agitado com a possibilidade de ver-se transcrito, mas é de fato só mais uma tentativa, entre tantas, de manter o vínculo, entre você e eu... e aquilo que amamos: o poema escrito...

terça-feira, 14 de julho de 2009

A sombra mais alta...

Vou descendo as encostas que beiram o grande caudal de prédios, a sombra deles supera em altura qualquer cidade do planeta. Sigo a correnteza, agora vermelha e lenta, são meus arrepios os próprios tremores de asfalto. Desço uma escada, e outra, um viaduto atravessa o céu, um túnel passa sob minha cabeça, cabeça que se multiplica aos milhares nas luzes das poças, cabeças chatas.
Então, no frio de cordilheiras que os morcegos vêm entre as folhas secas, um cântico antigo ressoa no silêncio de tudo, um canto maldito, à saudades...
E é tal canto como a escadaria longa que num sem fim me repito a descer, degraus separam palácios das ruínas, ao longe o fixo deserto tolhe as asas, caminho sem elos, entre a união indivisível do que foi e do que virá. Caminho, pois se correndo fosse, um estreito e rápido fim me conduziria...
Continuo descendo as escadarias e é a saudades lá em cima uma sombra alta, a mais alta que jamais voltarei a pisar...

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Asas de meu espírito

Deito as asas de meu espírito nas nuvens suaves que atravessam os séculos, feito descanso de predador planando nas sombras de seu próprio vôo. É alto, alto desejo. Deserto aberto no presídio das pálpebras, aberto o sorriso na imensidão do pensamento em nada. Mas toda ave de rapina desassossega em sua fome de tempos, e a sombra lá de cima começa a se agitar com a ventania, no platô amplo de seus olhos as imagens deslizam velozes e em saltos as presas tardam, um pouco, o inevitável abate... o mergulho rasante não poupará vida.
O corpo então desprende da cama as teias de fadiga a que fora submetido. Corpo que encontra espaço dentro da alma, desafia a queda e estabelece como destino o tortuoso caminho dos versos. A aventura não será fácil: inclinar-se a executar com imagens - sem o uso delas - as imagens oníricas de momentos anteriores. Desenhar o tempo, diluir o espaço no oceano das infindas possibilidades, habitar em contornos invisíveis e efeitos inéditos.
Escrever, atividade nobre. Nobre como a seiva da árvore no bico da calandra que, se chocando nos limites de sua pátria, leva ao lírio, do outro lado do rio, um sistema complexo de nutrientes. Não mais nobre que os dentes trabalhando no almoço sacro do operário. Nobreza como o ato-sacrifício de ensinar. Há uma mágica intrínseca que emana do espírito nobre, atrás dessa mágica apresso as teclas, esticando ao máximo os dedos, roçando o talento, que por natureza, sempre volta a escapar.
As camisas de forças da razão impossibilitam a mobilidade das letras, nada fica com o saber. O saber acaba com a percepção de tudo, com sua contemplação, com tudo que se tenciona em dúvida e com toda a vida que a contradição gera... uma semente a menos nos campos do mundo toda vez que o sábio levanta da terra velhas convicções.... Agora, um astronauta no espaço, joga nas estrelas, uma série de incoerências. É interessante ver a falta de encaixe que há nas arestas únicas de cada luz.
E assim, finco na historia as garras, sigo mudo pelo mundo, rastros de poeira lírica deixo, que mais poderia desejar deixar? Alto, alto desejo. Madrugada adentro o corpo se afoga na cama uma vez mais e a saudades começa apertar... fecho os olhos por um momento, o suficiente pra ele umedecer os sonhos e eu voltar a voar...

terça-feira, 7 de abril de 2009

A garganta berra

A garganta descansa. Será música o silêncio do som, sonho fecundo sem pensamentos... as estrelas não existem. Não existem mares, nem silêncio, não existe existência, eu lamento... só você existe, como única razão da razão, como um borrão no peito aberto, como uma cicatriz profunda entre meus lábios. Você, razão para minha loucura. É você o interminável porre de meus sentidos entorpecidos. Você o barulho, o medo, o pensamento... o improvável, o único, inadiável. Cão de seu domínio: meu coração é um segredo pra mim, um mistério em mim... eu continuarei, pois não me resta outra a não ser continuar, mas se sabia aonde ia, agora, nem sei saber, só a dor funde por não ser, como prova concreta de quem fui, levar a lembrança aberta, a garganta berra e você... você sequer vai ouvir...

terça-feira, 31 de março de 2009

Quero você

Quero que você empurre meu corpo débil ao precipício do vício... quero sentir a vertigem da morte entre meu dedo e o gelo do wisky. Saiba que eu não temo as luzes das brasas no escuro nem as sombras dos teus beijos lascivos que soltam meu espírito de uma altura, de onde eu pensei que nunca mais fosse cair, e caio enfim: completamente ébrio, no álcool da sua boca adormecida que eu rapidamente reanimo com o desejo desesperado de me deter dentro, dançando em você, inerte, ao compasso de seu pulso...

segunda-feira, 16 de março de 2009

Pra além da saudade

Fui levado pra
além das saudades,
recinto que me esconde
os olhos encharcados
o soluço ininterrupto...

Pra além sou levado
à compaixão de mim
por você, triste,
mas não rebaixa senti-la,
porque não é piedade,
com paixão a sinto,
rasgando por dentro
o dentro mesmo
de nós mesmos...

Pra além das saudades,
desespero.
Tocar a lembrança
com a ponta dos dedos
desvanecendo o tempo,
somente a dor ampla de reter
a efêmera lembrança
que toca e vai embora,
rasgando o avesso de nós
nos nossos espelhos.

Fico preso,
pra além da saudade
desespera e por ser só ela
é que sou tão só...

Pra além da saudade
dorme o eterno
despertar da ausência
eterna, toda manhã desperta
você rasgando o universo
desde esse lugar que está
muito além das saudades.